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Maestro Letieres Leite conduz Maria Bethânia à apoteose em disco que exalta a Mangueira

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Mesmo tardio, o disco em que Maria Bethânia exalta a Mangueira chega em tempo de acentuar o grande acerto do encontro da cantora baiana com o maestro conterrâneo Letieres Leite, condutor da Orkestra Rumpilezz, saudada pela inovação de cruzar majestosamente a música afro-brasileira com o universo do jazz.

Insinuado no corrente show Claros breus, feito pela cantora sob direção musical de Letieres, esse êxito resplandece em Mangueira – A menina dos meus olhos, álbum que Bethânia lança pelo selo Quitanda, através da gravadora Biscoito Fino, nesta sexta-feira, 6 de dezembro, para retribuir a homenagem lhe prestada há três anos pela tradicional agremiação carnavalesca em enredo campeão do Carnaval carioca de 2016.

São os arranjos de Letieres que conduzem a intérprete à apoteose. Ao orquestrar mix bem urdido de cordas, percussões e sopros, o maestro renova a sonoridade de Bethânia – com mais força do que no show Claros breus – e justifica esse disco que transita entre o salão e o terreiro, sem tirar o pé da avenida.

Embora original, a sonoridade de Letieres remete eventualmente às orquestrações de álbum, Livro (1997), em que Caetano Veloso mostrou onde o Rio de Janeiro é mais baiano. Em Mangueira – A menina dos meus olhos, Bethânia também aponta onde a Bahia pode ser mais carioca.

Essa ponte Rio-Bahia já tinha sido sinalizada em 31 de outubro com a edição do single A flor e o espinho (Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha, 1957), em que sutil toque do ijexá é inserido na cadência bonita desse samba do ilustre compositor mangueirense Nelson Cavaquinho (1911 – 1986), de quem Bethânia também acende Luz negra (Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso, 1961) com dramaticidade dosada e enquadrada na moldura afro-sinfônica de Letieres Leite.

No teatro com as cores verde e rosa, Bethânia (re)cita poema do escritor moçambicano Mia Couto, Sombras da água, em A flor e o espinho com a mesma altivez com que declama a letra de Sei lá, Mangueira (1968), elevando os versos escritos por Hermínio Bello de Carvalho com melodia de Paulinho da Viola. Ainda assim, o arranjo de Letieres Leite paira na mesma altura.

Sem molejo para cantar os sambas Mangueira (Assis Valente e Zequinha Abreu, 1935) e A Mangueira é lá no céu (Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho, 1970), propagados originalmente pelo Bando da Lua e pela cantora Clementina de Jesus (1901 – 1987), respectivamente, Bethânia contrabalança essa falta de ritmo com o canto já maturado e com a personalidade forte que lhe tornou uma intérprete tão grande que nem cabe explicação.

Ao alternar canto e récita de versos do já antológico samba-enredo História pra ninar gente grande (Tomaz Miranda, Deivid Domênico, Luiz Carlos Máximo, Mama, Márcio Bola, Ronie Oliveira, Danilo Firmino e Manu da Cuíca, 2018), Bethânia acentua a moral esquerdista dessa história enquanto se impõe no disco, como a lembrar que nenhum maestro, por mais genial que seja, e Letieres é gênio, lhe ofusca no estúdio e muito menos no palco.

Mesmo soberana, a dona do enredo abre espaço e pede passagem para Tantinho da Mangueira e Caetano Veloso puxarem sambas-enredos perdedores na disputa pela primazia de celebrar Bethânia na Avenida Sapucaí no desfile da Mangueira no Carnaval de 2016. São sambas criados a partir do enredo o enredo Maria Bethânia – A menina dos olhos de Oyá, criado pelo já consagrado carnavalesco Leandro Vieira.

Com a voz potente, Tantinho canta com o pé no chão o samba que compôs com Alípio Carmo, André Braga, Guilherme Sá, Jansen Carvalho e Marcos Túlio. Caetano entra na avenida com o filho Moreno Veloso para cantar outro samba-enredo da mesma safra mangueirense, tão ou ainda mais bonito do que o de Tantinho.

om as presenças de Caetano e Moreno, o Rio fica ainda mais baiano. E a Bahia mais carioca. Confortável dentro dessa ponte Rio-Bahia, Maria Bethânia encerra ao modo dela o desfile de exaltações do álbum, cujo desleixo na criação da arte da capa (assinada por Gringo Cardia com Gilda Midani) permite inclusive que o disco seja interpretado como sendo da Mangueira e como se chamasse Maria Bethânia – A menina dos meus olhos.

No arremate de álbum com apenas nove faixas, a intérprete canta somente trecho do samba-enredo Maria Bethânia – a menina dos olhos de Oyá (Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão, 2015), enfatizando ao fim o verso “Não mexe comigo que eu sou a menina de Oyá” com o brio costumeiro.

Destemido, Letieres Leite mexeu. Pelo menos na sonoridade da cantora, e cabe enfatizar que é conduzida pelo maestro baiano que Maria Bethânia chega à apoteose neste desfile de exaltações à Mangueira. (Cotação: * * * *)

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